..
Pequeno léxico de palavras incompreendidas:
.
A traição. Desde nossa infância, papai e professor nos repetem que é a coisa mais abominável que se possa conceber. Mas o que é trair? Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido.
O objetivo do que seguimos é sempre velado. O que dá sentido à nossa conduta é totalmente desconhecido para nós.
..
11
Olhava para Thomas. Não tinha os olhos fixos nos dele, mas uns dez centímetros acima, nos cabelos, que exalavam o cheiro de sexo da outra.
Ele a pegou pelo braço e a levou para uma praça onde costumavam passear alguns anos atrás, e disse: "Eu a entendo. Sei o que vc quer. Está tudo arranjado. Agora, você vai ao monte Petrim. Quando chegar lá, você vai entender".
Teresa não tinha vontade nenhuma de ir, mas não podia desobedecer a Thomas.
..
Finalmente chegou ao topo, e lá viu alguns homens. Quanto mais se aproximava, mais diminuia seus passos. Estavam imóveis, ou iam e vinham lentamente. Irradiavam uma cordialidade indulgente. Um deles segurava um fuzil. Ao ver Tereza, fez-lhe um sinal e disse com um sorriso: "Sim, é aqui". Ela o cumprimentou, terrivelmente encabulada.
.
O homem com fuzil acrescentou: "Para que não haja erro, é mesmo a sua vontade?"
Seria fácil dizer dizer "não, não é a minha vontade"; mas lhe era impossível trair a confiança de Thomas. Então disse: "Sim, claro, é a minha vontade".
.
13
Um dos assistentes aproximou-se de Tereza sem uma palavra. Levava na mão uma venda azul-escura. Ela então sacudiu a cabeça, e disse: "Não, quero ver tudo".
Mas não era essa a verdadeira razão de sua recusa. Dizia a si mesma que no momento em que seus olhos estivessem vendados estaria na antecâmara da morte, sem esperança de volta. O homem não tentou coagi-la e segurou-a pelo braço. Ninguém a apressava, mas sabia que de qualquer maneira não poderia escapar. Percebendo à sua frente um castanheiro em flor, aproximou-se.
O homem levantou o fuzil. Tereza sentia-se sem coragem. Estava desesperada com sua fraqueza, mas não podia controlá-la.
.
E então, disse:
.....Não, não é minha vontade!
Trechos: Milan Kundera

0 comentários:
Postar um comentário